Ideologia como política da vida


A presente pesquisa visa problematizar a educação contemporânea a partir da tese de que a ideologia atua como um dispositivo biopolítico. Num primeiro momento, trata-se de apresentar um outro mapa da ideologia, fazendo referência ao conceito na obra A Ideologia Alemã de Karl Marx e Friedrich Engels. Num segundo momento, detém-se à noção foucaultiana de dispositivo e de biopolítica. 

No Vocabulário de Foucault (2009) a palavra dispositivo é caracterizada, no mínimo, em cinco diferentes ideias, a saber: 1) rede de relações que podem ser estabelecidas entre elementos heterogêneos; 2) estabelece a natureza do nexo que pode existir entre elementos heterogêneos; 3) tem uma função estratégica; 4) define-se por sua gênese (predomínio do objeto estratégico e constituição do dispositivo propriamente dito); 5) permanece como tal na medida em que tem lugar um processo de sobredeterminação funcional. Ao longo de seu pensamento, Foucault faz referência a dispositivos disciplinares, dispositivos de poder, dispositivos de saber, dispositivo carcerário, dispositivo de sexualidade, dispositivo de aliança, dispositivo de subjetividade, dispositivo de verdade, entre outros. 

No que tange ao conceito de biopolítica, aparece na obra de Foucault, pela primeira vez, no último capítulo de História da Sexualidade I, A vontade de saber (1976) intitulado Direito de morte e poder sobre a vida, e desenvolvido, no mesmo ano, no curso Em defesa da sociedade, proferido no Collège de France. Aqui, cabe apontar que a introdução ao conceito de biopolítica surge de combinações das análises anteriormente desenvolvidas em A verdade e as formas jurídicas, ciclo de conferências proferidas em 1974, no Rio de Janeiro, onde o termo é relacionado com o nascimento da medicina social[1]; e em Vigiar e Punir: nascimento da prisão (1975), definido como anátomo-potica do corpo”, e mais tarde, em A vontade de saber como biopotica das populões”. 

Recentemente, com a publicação dos cursos Segurança, Território e População (1977-1978) e, principalmente, Nascimento da Biopolítica (1978-1979), ministrados no Collège de France, a potência do conceito vem à tona. Num terceiro momento, investiga-se a ideologia como política da vida - agencia a vida da população, tendo poder tal que pode talhar o real segundo o seu modelo.  

Como sabemos, ideologia é um conceito bastante caro no pensamento de Foucault, aparece em dois momentos. Inicialmente, como desconstrução a partir das obras As palavras e as coisas (arqueologia do conceito de ideologia) e Arqueologia do Saber (substituição do conceito de ideologia pelo conceito de formação discursiva). E, em seguida, como reformulação, a partir das obras Vigiar e Punir: nascimento da prisão (conceito de ideologia aparece como um dispositivo de sujeição), História da Sexualidade I: A vontade de saber (abandona o conceito de ideologia como um conceito metodológico) e nos cursos ministrados no Collège de France, a saber: Segurança, Território e População (1977-1978), Nascimento da Biopolítica (1978-1979) e Coragem da Verdade (1983-1984) onde o conceito de ideologia aparece como um dispositivo biopolítico. Diante deste cenário de investigação, o nazismo, enquanto uma forma de racismo, é assinalado como a combinação mais ingênua e ardilosa por articula assassinato, racismo, disciplina e regulamentação biológica

Podemos apontá-lo como o apogeu da biopolítica, uma vez que ela acaba ganhando corpo no cerne do próprio nazismo. Ao mesmo tempo que o nazismo desencadeou o direito de morte, ao declarar a guerra e ao assassinar o inimigo expôs a sua própria raça ao perigo da morte. Assim, o risco de morte e a obediência caracterizaram a política nazista de exposição da população à morte, garantindo para a constituição de si mesma como raça superior e a possibilidade da regeneração perante as raças inferiores. Em outras palavras, o nazismo generalizou tanto a biopolítica como a tanatopolítica, trazendo a lógica de uma biotanatopolítica, ou seja, um agenciamento entre o cálculo do poder sobre a vida e o cálculo do poder sobre a morte. A ideologia absoluta do nazista, por exemplo, transformou-se numa arte de governar onde a morte constituiu o motor do próprio mecanismo: morte dos inimigos externos, morte dos inimigos internos, morte do próprio povo alemão. 

Na atualidade os conceitos de ideologia e de biopolítica estão sendo destrinchados sob diferentes áreas e sendo deles feito uso para diferentes temas. Ao tomarmos ideologia como um dispositivo biopolítico para problematizar a educação contemporânea, nos deparamos com a instituição escola comprometida em preparar competências que orientem os futuros sujeitos-clientes a atuarem num mundo marcado pelo mercado e pela competição.



[1] La naissance de la médecine sociale foi a segunda conferência pronunciada no curso sobre a medicina social proferido na Universidade do Estado do Rio de Janeiro em outubro de 1974.

Autora:

Kelin Valeirão
Licenciada em Filosofia, especialista em Filosofia Moral e Política, mestre em Educação e doutoranda em Educação na linha de pesquisa Filosofia e História da Educação. Recentemente realizou um estágio de doutoramento no Departamento de Filosofia da Universidade Clássica de Lisboa sob a co-orientação do Prof. Dr. Nuno Nabais.